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Cidade Tiradentes: Memória Viva de Lutas e Resistência Popular na Zona Leste de São Paulo

Apresentação

No recente período da urbanização brasileira, especialmente entre fins dos anos 1970 e início dos anos 1980, o processo de formação histórico-social do Complexo Habitacional Cidade Tiradentes foi marcado pelo grande afluxo de trabalhadores que, advindos de inúmeras regiões da cidade, do estado e do país, buscavam adquirir a casa própria e assim reduzir o custo da moradia com o fim do aluguel.

É nesse período, portanto, que se estabelece, institucionalmente, o marco de fundação do bairro, data associada ao início das obras do conjunto habitacional Santa Etelvina, em 1981, então denominado COHAB Cidade Tiradentes em homenagem às “figuras históricas” da Inconfidência Mineira. No entanto, a história e as particularidades desse local, onde hoje estão fincados os prédios de concreto, antecedem este período.

É necessário lembrar, que desde tempos imemoriais essa “terra”, atualmente chamada Cidade Tiradentes, foi habitada por importantes nações indígenas, como as comunidades indígenas dos Guaianás. Posteriormente, essas “terras” não apenas testemunharam a chaga da escravidão, mas, sobretudo, a permanente resistência e luta contra ela. A fundação da Igreja Santa Cruz das Almas, erguida na Estrada do Iguatemi entre 1924 e 1930 em homenagem às almas dos escravos sacrificados no local, pode ser considerada um importante marco simbólico dessa resistência e luta.

A região também foi o destino de muitos imigrantes europeus que aqui chegaram com as ferrovias, estabelecendo-se em pequenos sítios e chácaras no final do século XIX e início do XX. Mais recentemente, especialmente após a década de 1950, a região onde hoje se localiza Cidade Tiradentes foi ainda um local de destino de muitos migrantes de todo o Brasil, que para cá se deslocavam em busca da tão sonhada casa própria.

A partir da década de 1950 ocorreu uma intensa dispersão urbana na periferia de São Paulo e na região metropolitana, fato que influenciou a constituição de Cidade Tiradentes na década de 1980. Até esse período, o espaço que hoje corresponde ao bairro de Cidade Tiradentes, era uma região composta por chácaras, sítios e fazendas, situadas nos arredores de Guaianases, onde havia se formado o primeiro núcleo urbano mais próximo, com a chegada da estrada de ferro em 1877 a 6 km de distância. Preservando a memória desse período, permanece apenas a antiga sede da Fazenda Santa Etelvina adquira pela COHAB-SP em 1980, localizada ao lado do Terminal de Ônibus de Cidade Tiradentes.

Fornecendo-nos um vivo “retrato” desse tempo não tão distante, Sandra Regina Alexandre, 57 anos, filha de pai baiano e mãe mineira, moradora de Cidade Tiradentes há mais de 16 anos, assim relembra sua infância:

antes o meu pai vinha trabalhar aqui quando eu era pequena. Ele vinha trabalhar aqui, nas chácaras. (…). A gente vinha de Guaianases de charrete com ele. Naquele tempo podia trazer crianças para o trabalho. Então ele trazia a gente, vinha minha mãe. (…) ele vendia peixe, [era] autônomo. (…). Ele trazia peixe e levava as verduras pra vender. Então foi dessa forma que eu conheci Cidade Tiradentes. Não tinha prédios ainda. Eram mais sítios né!? Eram mais sítios, chácaras. Então ele vinha trabalhar aqui. Foram muitos anos, aí resolvemos mudar para Cidade Tiradentes, que eu gosto muito. Eu digo sempre, né!? – Eu não nasci aqui, mas minha comida saiu daqui. Saiu desse chão, era meu alimento. Saiu desse chão!”. (Sandra Regina Alexandre, 57 anos, artesã, integrante do MOCUTI).

Já no final da década de 1970, porém, essa paisagem predominantemente rural passou a ser gradativamente substituída pelos imensos conjuntos de habitação popular da COHAB-SP. Fato que contribuiu decisivamente para o aumento da população do bairro que, em apenas 20 anos (1980-2000), passou de 8.603 habitantes para 190.657. (IBGE, 2010)

Com a intervenção da COHAB-SP, Cidade Tiradentes recebeu diversas famílias de outras partes de São Paulo e de todo o Brasil em busca da tão sonhada “casa própria”, transformando-se no maior fenômeno de crescimento urbano da história de São Paulo.

Atualmente o Complexo Habitacional de Cidade Tiradentes é composto por 14 conjuntos de habitação popular, que totalizam 42.369 unidades financiadas pela COHAB-SP. Para que se tenha uma ideia da dimensão do conjunto habitacional basta observar que entre anos de 1965 a 1999, o total de habitações no bairro de Cidade Tiradentes correspondia a nada desprezível porcentagem de 32,5% do total de moradias populares construídas e financiadas pela COHAB-SP na região metropolitana de São Paulo.

Desde então, Cidade Tiradentes tornou-se prioritariamente local de moradia da classe trabalhadora paulistana, mas também de muitas Lutas e Resistências Populares.

Segundo o IBGE, o Distrito de Cidade Tiradentes possuía uma população superior a 250 mil pessoas em 2010.

O resultado da presente pesquisa contribuiu para a fundação dos Centro de Memória Viva de Cidade Tiradentes sediado no CENTRO DE FORMAÇÃO CULTURAL CIDADE TIRADENTES. Confira os detalhes desse trabalho do Instituto Bixiga em parceria com a Prefeitura de São Paulo aqui.

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