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O Bixiga do Bexiga: dos italianos ao Rock and Roll, da bexiga de boi à Bella Vista, das Memórias para a Eternidade. Felicce Fatarelli Fazzalari

ARTIGO

“Hoje acabo de saber que o Bexiga vai morrer, por só ter gente de linha. Mas que saudade como era antigamente. Dos boteco lá da gente, das partida de bilhar. Como é que a gente acredita no que tinha? Se o nosso velho Bexiga hoje em dia é Bela Vista…”.

Milton Carlos

A canção Saudade do Bexiga, escrita pelo saudoso cantor e compositor Milton Carlos, morto em um trágico acidente automobilístico na rodovia Anhanguera, em 1976, abre o leque de possibilidades para a criação de uma séria discussão, que acreditamos ser pertinente para manter a memória não somente do Bexiga, um dos bairros mais queridos pelos paulistanos, mas também de outros bairros de São Paulo.

Segundo Isolda Bourdot, irmã de Milton Carlos e famosa compositora de diversas canções gravadas por Roberto Carlos, “Milton sempre alugava seus tios perguntando como era São Paulo antigamente, como era o bairro do Bexiga, como era no tempo de vovô. Meus tios contavam, contavam e ele perguntava mais e mais”. Possivelmente, através das memórias de seus avós, nasce o despertar histórico sobre o bairro do Bexiga. Segundo Halbwachs, o indivíduo que lembra está inserido na sociedade na qual sempre possui um ou mais grupo de referência, a memória é, então, sempre construída em grupo, sendo que “cada memória individual é um ponto de vista sobre a memória coletiva”. Como podemos ver, o trabalho do sujeito no processo de rememoração não é descartado, visto que:

as lembranças permanecem coletivas e nos são lembradas por outros, ainda que trate de eventos em que somente nós estivemos envolvidos e objetos que somente nós vimos. Isso acontece porque jamais estamos sós.”

(HALBWACHS, 2013, p. 30)

Num instante, remeto-me as minhas memórias sobre o bairro do Bexiga, das “noitadas” com os amigos pela Rua 13 de Maio, uma das ruas mais importantes do cenário boêmio da metrópole paulistana, no entanto, não me refiro às belas e clássicas Cantinas Italianas, que mantêm viva a culinária e a cultura Mediterrânea, cultura essa que tenho ascendência. Faço referência aos tradicionais bares, entre eles o Café Piu-Piu, Alkatraz e Café The Wall, relevantes meios transmissores de cultura, entre elas, a música, mais precisamente, o Rock and Roll. Em minhas memórias, o bairro do Bexiga sempre estará ligado a Peter Frampton, ao Pink Floyd, ao Led Zeppelin, e a diversos outros músicos ligados ao estilo. Outrossim, a uma cultura elitista do final dos anos 1990 e começo dos anos 2000, visto que, aproveitar a noite no bairro não era uma tarefa “barata” para um garoto nascido na Zona Leste de São Paulo, filho de italianos, que sempre tiveram uma vida difícil e humilde. Consigo, até hoje, e espero conseguir até os meus últimos minutos de vida, reconstituir diversas memórias sobre esse bairro. Sob esse ponto de vista remeto-me novamente a Halbwachs, que diz:

Uma ou mais pessoas juntando suas lembranças conseguem descrever com muita exatidão fatos ou objetos que vimos ao mesmo tempo em que elas, e conseguem até reconstituir toda a sequência de nossos atos e nossas palavras em circunstâncias definidas, sem que nos lembremos de nada de tudo isso.

(HALBWACHS, 2013, p. 31)

O bairro do Bexiga é considerado um dos bairros mais tradicionais de São Paulo devido a sua diversidade cultural, bares, teatros, cantinas e museus, o que lhe dá a alcunha de Broadway paulistana. O bairro, fundado em uma terça-feira, dia 1º de outubro de 1878, está administrativamente ligado ao distrito da Bela Vista. O dia de sua fundação está devidamente reconhecido e registrado por meio da Lei Municipal nº 12.837, de 10 de maio de 1999.

Segundo Marzola, a Bela Vista, como outros tradicionais bairros de São Paulo, está perdendo completamente suas características, suas tradições, e só não foi destruída pela especulação imobiliária porque o seu traçado urbano e o tamanho de seus lotes não favorecem esse processo. Por situar-se entre o centro velho e o novo centro, concentrado na Av. Paulista, encontra-se estagnado entre essas duas áreas, devido às características do tipo de lote.

Quando o bairro foi arruado, em 1879, São Paulo passava por um momento significativo, pois fatores externos, econômicos e sociais fizeram com que a cidade começasse a evoluir, a crescer e a tomar feições mais urbanas, adquirindo destaque no cenário econômico brasileiro. Em 1974, a COGESP – Coordenadoria Geral do Planejamento – efetuou um estudo de renovação urbana para a área, tendo como principais objetivos a renovação urbana do bairro. (MARZOLA, 1979)

Para escrever este artigo, visitei alguns locais do bairro do Bexiga e da região da Bela Vista, e pude perceber a disparidade local, principalmente entre as ruas Major Diogo, onde se encontra o Centro de Preservação Cultural da Universidade de São Paulo, também conhecido como “Casa de Dona Yayá”, a rua dos Franceses, local do condomínio Praça dos Franceses, conhecido pela curiosa escultura do artista ítalo-brasileiro Domenico Calabrone (1928-2000).

Devido à pandemia da COVID-19, diversos estabelecimentos, sendo eles cantinas, bares e museus, encontram-se fechados e muitos moradores de rua perambulam, aparentemente, em busca por alimentação e proteção, o que infelizmente falta não somente a eles, mas esse não é o foco deste artigo. O meu foco central é o MUMBI – Museu Memória do Bexiga, estabelecido a Rua dos Ingleses, nº 118, porém, para chegar ao querido museu, é preciso entender um pouco sobre a história do bairro do Bexiga.

Em 1559 a área fazia parte da Sesmaria do Capão, pertencente a Antônio Pinto. Um dos seus últimos proprietários foi Antônio José Leite Braga, no final do século XIX. As terras, que iam da atual Avenida Nove de Julho até a Brigadeiro Luís Antônio, começaram a ser loteadas após a inauguração da elegante e aristocrática Avenida Paulista, em 1882. As primeiras ruas abertas ganharam nomes como Vale do Andorra (atual Santo Antônio), Valinho (Major Quedinho), Antônio Prado (Major Diogo), Celeste (13 de Maio), Misericórdia (atual Abolição). Já a Avenida Brigadeiro Luís Antônio foi aberta nas antigas terras do Barão de Limeira, a fim de encurtar o caminho para Santo Amaro.

Não sabemos exatamente o motivo pelo qual o bairro recebeu esse nome. Existem várias hipóteses, mas não há certeza sobre qual versão é a verdadeira. De acordo com Marzola (1979), uma das hipóteses sugere que o nome do bairro derivou da Chácara do Bexiga, pertencente a um certo Antonio Bexiga ou Manuel, que possuía uma estalagem local. A Chácara do Bexiga ficava entre o Riacho Itororó, atual Avenida 23 de Maio, o Riacho Saracura, atual Avenida 9 de Julho, e o Piques, atual Vale do Anhangabaú:

A essa estalagem se refere Saint-Hilaire, quando de sua passagem por São Paulo, em 1819, dizendo que alguém lhe indicou a hospedaria de um tal Bexiga que possuía dentro da cidade vastas pastagens. Segundo plantas antigas, a residência do estalajadeiro Bexiga ficava à direita do riacho Saracura e à esquerda do riacho do Bexiga, tendo na frente o Anhangabaú.

(MARZOLA, 1979, p. 36)

Outra hipótese levantada sobre a origem do nome do bairro diz respeito à varíola, ou “bexiga”, como era conhecida. A mais antiga referência sobre surtos de varíola em São Paulo data de 1564. De acordo com a pesquisa de Oliveira:

No final do século XIX, o estado de São Paulo passava por grandes transformações sociodemográficas, recebendo grande número de imigrantes para trabalhar nas fazendas produtoras de café no interior do estado ou nas indústrias que iam sendo construídas na capital. A chegada desses imigrantes em grande número, aliada às precárias condições de higiene em que eles ficavam nas hospedarias e às más condições sanitárias da cidade, permitiu que nesse período fosse comum a ocorrência de diversas epidemias, como de febre amarela, varíola, febre tifoide, difteria e cólera. Por sua vez, o maior deslocamento de pessoas dentro do estado de São Paulo também ajudava a disseminar essas doenças.

(OLIVEIRA, 1986)

Sob o ponto de vista de Camargo, outro pesquisador sobre a cidade de São Paulo, mais especificamente sobre as doenças vividas na metrópole, ressaltamos:

Há também sugestões de que havia nas proximidades do bairro um lazareto específico para os doentes de varíola. Mas de fato, o que se sabe, é que no final do século XVIII (pelo menos a partir de 1794), o governo de São Paulo construiu no local um abrigo para os bexiguentos – Hospital das Bexigas. Esse hospital funcionou ali até 1803, após esse período foi transferido para próximo do atual bairro do Pari.

(CAMARGO, 2007, p. 227)

Outra hipótese levantada vem do comércio de bexigas de boi provenientes do matadouro municipal da cidade. Este foi construído por volta de 1773-1774, no Beco do Mata-Fome, que hoje estaria em partes das ruas Araújo e Consolação,  via de passagem de tropeiros e seus gados, que iam rumo ao matadouro. Nesse sentido, apontamos uma curiosidade: no ano de 1884, Charles Miller trouxe da Inglaterra a primeira bola a rolar nos campos de futebol brasileiros. A matéria-prima usada era de origem animal e as bolas eram feitas de couro curtido (o famoso capotão) e a câmara de ar era uma bexiga de boi. As bolas de bexiga de boi foram importantes para a disseminação do futebol em São Paulo, aguçando a curiosidade das pessoas que a habitavam no final do Século XIX, e até de pessoas que viviam em outros estados, como relata o jornalista Celso de Araújo, em 16 agosto de 1896, ao também jornalista Alcindo Guanabara:

…) esses ensaios privados dos britânicos valeram de muito, embora não pareçam. Serviram para que a cidade ficasse sabendo que “lá pelos lados da Luz, do Bom Retiro, um grupo de ingleses, maníacos como eles só, se punha, de vez em quando, a dar pontapés numa coisa parecida com bexiga de boi, dando-lhe grande satisfação e pesar, quando essa espécie de bexiga amarelada entrava por um retângulo formado de paus.

(CAMARGO, 2013, p.80)

O bairro começou o seu crescimento por meio da cultura do café e da imigração europeia. A partir de 1870, São Paulo torna-se a ligação ferroviária entre o interior e o litoral. Ainda na mesma época, feiras de madeira, pouso de tropas e companhias circenses estabeleceram-se no largo do Bexiga. A partir de 1880, o bairro teve efetiva urbanização por imigrantes italianos e classes menos abastadas, buscando novas oportunidades de trabalho nas zonas urbanizadas:

O Bexiga foi o bairro dos italianos, na maioria calabreses, que aproveitaram os preços baixos, as ruas de 60 palmos, íngremes, para recriar ambientes da Itália na cidade que se modificava. Ao se transplantarem para São Paulo, trouxeram consigo toda uma tradição cultura que foi marcante na paisagem local.

(MARZOLA, 1979, p. 64)

Por volta de 1902, casas e barracos construídos por italianos e negros libertos deram início a um núcleo de povoamento:

uma padaria, uma mercearia (a Basilicata) e uma santa padroeira (Nossa Srª Achiropita), trazida pelos calabreses de Rossano, que chegaram a São Paulo ainda no século XIX, substituindo escravos alforriados”.

(MARZOLA, 1979, p. 67)

Em 1910, o Bexiga passou a pertencer ao 17º subdistrito do Município de São Paulo, pela lei nº 1242, de 26 de dezembro de 1910, com o nome de Bella Vista:

Na ocasião esse nome não lhe ia mal. Dali se avistava, então, um “Senhor” panorama: o Anhangabaú, por onde escorria o regato, mais além (do lado da Líbero Badaró) o casario arrojado da época, com seu estilo esbanjando rococó; os viadutos do Chá e de Santa Efigênia; o bairro ficava sobranceiro ao grotão da 9 de julho, onde se açoitavam escravos fujões. Mais além, na cabeceira, montado no cucuruto do espigão da Paulista, as primeiras mansões dos ricaços. Uma bonita vista, sem dúvida.

(KOWYAMA, 1965)

Em meados do século XIX, com o fluxo migratório de europeus, principalmente de italianos, o desenvolvimento elevou-se, não somente do bairro do Bexiga, como também da cidade de São Paulo. Os italianos exerceram influência intelectual e cultural sobre as diferentes classes sociais da cidade; as festas e a arte de construir sobre o solo foram algumas de suas contribuições. A seguir, vamos relembrar algumas delas.

A Igreja Nossa Senhora da Achiropita

Em 1908, imigrantes provenientes da região da Calábria, ao Sul da Itália, trouxeram a imagem de Nossa Senhora Achiropita. Devido à inexistência de uma capela local, a imagem ficou posta na casa de Giuseppe Falcone. Reuniões entre os moradores do bairro eram feitas em sua casa com o propósito de realizar novenas. A partir de 1910, a exposição da imagem aconteceu entre 13 a 15 de agosto, na esquina das Ruas 13 de Maio com Manuel Dutra. Em 1918, uma pequena capela foi erguida, porém, devido ao grande fluxo de devotos, foi necessário construir uma igreja maior. A fim de arrecadar fundos para a construção da igreja, em 1910, foi criada a comissão de festas, dando início às quermesses de rua. Em junho de 1926, foram colocados a pedra fundamental da fachada da igreja e o sino. Diversas imagens de santos foram, aos poucos, doadas e a igreja foi perdendo os ares de capela e ganhando altares e novas construções. São José era oficialmente o santo padroeiro, mas o altar principal continuava a ser ocupado por Nossa Srª Achiropita.

Importantes movimentos começaram a se formar na paróquia a partir de 1931 e a revigorar a espiritualidade. Dom Orione, fundador da congregação responsável pela paróquia, esteve no Bexiga pela segunda vez em 1937 e impulsionou o trabalho desenvolvido pelos padres orionitas desde o começo da década de 20. A comunidade estava ganhando forças; procissões, romarias e retiros eram realizados frequentemente e mostravam que a fé do povo continuava a crescer. Nos termos de Maffesoli (2001) entendemos que:

o imaginário é determinado pela ideia de fazer parte de algo. Partilha-se uma filosofia de vida, uma linguagem, uma atmosfera, uma ideia de mundo, uma visão das coisas, na encruzilhada do racional e do não racional.

(MAFFESOLI, 2001, p. 80)

No ano de 2020, devido à pandemia da COVID-19, pela primeira vez, em 94 anos de história da Festa de Nossa Senhora Achiropita, o evento foi reinventado. No lugar das famosas barracas de rua, a festa aconteceu de maneira on-line. Os famosos espaguetes, cannolis, antepastos e as deliciosas fogaças, eram retirados na porta da paróquia e também entregues por motoboys. Segundo Igor Kopytoff, de um ponto de vista cultural, a produção de mercadorias é também um processo cognitivo e cultural: as mercadorias devem ser não apenas produzidas materialmente como coisas, mas também culturalmente sinalizadas como um determinado tipo de coisas. Essa mesma coisa pode ser tratada como mercadoria numa determinada ocasião, e não ser em outra. (APPADURAI apud KOPYTOFF, 2010)

Em suma, os pratos de espaguetes e cannolis não são simples porções de massas, molhos e recheios, são mais do que isso, são pratos recheados de momentos e memórias, que devem ser compartilhados. Outro ponto importante, segundo Halbwachs, refere-se a nossa memória que se apega mais ao fato vivido do que àquele que entramos em contato através dos livros, por exemplo. Sob esse ponto de vista, vislumbro o meu caso, pois não consigo lembrar o nome de nenhuma rua do centro de São Paulo, mas ao andar por algumas delas, a memória individual remete-me para a história vivida, com a devida importância afetiva.

O Casarão Belvedere

Espaço Cultural Dona Julieta Sohn

O Casarão Belvedere encontra-se a Rua Pedroso, nº 267, no Bairro da Bela Vista. Construído em 1927 e habitado por 4 gerações de descendentes dos seus construtores, a família de Ernest Sohn, este, imigrante francês, que veio a ser médico em São Paulo. Além de italianos e negros libertos, franceses e ingleses também se estabeleceram na região da Bela Vista, ajudando assim, no início do século XX, a remodelar a cidade.

Ernest Sohn decidiu vir para o Brasil por volta de 1887. Dona Cecília, terceira geração da família Sohn, estabeleceu-se no imóvel até o ano de 1999, ano em que veio a falecer. Dona Carmen, irmã de dona Cecília, após reunião com os membros da família, decide desfazer-se do imóvel.

Em setembro de 2001, Dona Carmen e os demais descendentes da família de Ernest Sohn decidem vender o imóvel. Entretanto, aconteceu uma venda curiosa que se concretizou por meio da venda de janelas, portas, móveis, vitrais e escadas da casa. Segundo o senhor Paulo Goya, filho de dona Carmen e bisneto do Dr. Ernest Sohn, a venda dos objetos foi idealizada e realizada por sua prima: “tudo que dava lustro e beleza a casa, sobretudo, eram coisas feitas de materiais nobres. As janelas e as venezianas eram de pinho de viga e imbuia. Tudo construído, em grande parte, no Liceu de Artes e ofício, com madeiras brasileiras. A escada era feita de Pau-Brasil”, diz o senhor Paulo Goya. Contudo, ainda de acordo com ele, sua prima vendeu tudo “a preço de banana”. O objetivo de sua prima era ver os objetos preservados em algum lugar. A regra era pagar um preço baixo e o próprio comprador retirava os móveis. “Obviamente que os antiquários fizeram uma festa”, diz Goya. Em reunião ordinária realizada em 10 de dezembro de 2002, o imóvel foi tombado pelo CONPRESP – Conselho Municipal de Preservação e Patrimônio – considerando a existência de elementos históricos, estruturadores do ambiente urbano, cultural e afetivo.

Em janeiro de 2003, Goya, que é ator e presidente da OSCIP – Organização da Sociedade Civil de Interesse Público – e herdeiro do imóvel, propõe à família a transformação do Casarão em espaço cultural, para contar a trajetória e o desenvolvimento do distrito da Bela Vista, e gerencia os projetos artísticos. Durante todo o ano de 2003 tentou-se recuperar e salvaguardar o que restava da construção. Obra custosa.

Diante da impossibilidade de gerenciar a restauração e levar adiante o projeto artístico estabeleceu-se uma parceria para a obtenção da Lei de Fomento ao Teatro. Desde 26 de agosto de 2005, diversas apresentações aconteceram no Casarão, entre elas, duas Viradas Culturais, envolvendo artes cênicas e visuais, além das musicais. Paulo Goya defende a criação de uma nova política de preservação para a cidade de São Paulo e a criação do polo Cultural Vila Itororó, em respeito aos seus habitantes e a sua história. “A questão está em viver a memória. É absolutamente capital deixar a memória ser lida, revista, reanalisada e repensada”.

A Vila Itororó

A Cidade de São Paulo, durante o século XIX, sofreu com alterações urbanas, refazendo-se sobre os seus escombros. Segundo Mazorla (1979, p. 127) a Vila Itororó, singular construção de um palacete e um conjunto de 37 casas construídas pelo mestre de obras, o português Francisco de Castro, na década de 1920, encontra-se à meia encosta do Vale do Itororó a Rua Martiniano de Carvalho, nº 35, e constitui um exemplo que se destaca na paisagem urbana por sua feição original.

Foi a primeira obra de engenharia brasileira a utilizar material reciclado. Boa parte do material utilizado foi o entulho da demolição do Teatro São José, o primeiro teatro da cidade, que foi destruído em um incêndio. “Um conjunto que reflete um aspecto incomum do imigrante enriquecido e, neste caso específico, imaginoso. O caráter plástico do conjunto se definiu como uma colagem de surpreendente originalidade com acento onírico e pitoresco que passou a ser identificado espontaneamente como a ‘Vila Surrealista’”. (MARZOLA, 1979, p. 133)

A área, por sua topografia acidentada e irregular, evoca diversas vilas e aldeias do Mediterrâneo. Nascentes existentes na área foram aproveitadas para a efetuação da primeira piscina particular da cidade de São Paulo, que posteriormente foi utilizada para o lazer de toda a vizinhança. O riacho Itororó, canalizado, que percorre o seu curso abaixo da Avenida 23 de Maio, não somente abastecia a piscina da Vila, como deu o nome a ela. A vila teve a sua conclusão no ano de 1922.

Mestre Castro teve uma vida muito generosa, de ostentação, mas com muitas dívidas. Na década de 1930, seu patrimônio foi arrematado por seus credores e posteriormente doada para o Hospital Augusto de Oliveira Camargo (HAOC). Infelizmente, o local foi invadido e transformado em um grande cortiço. Nos anos 1970, o SESC preparava a compra da Vila para transformá-la em um centro cultural, o que não aconteceu. Em 1996, o HAOC abandonou a gestão dos imóveis. Em 2006, a prefeitura declarou a área de utilidade pública e, em 2011, moradores da Vila Itororó foram transferidos para prédios do CDHU no próprio bairro e a partir de 2012 teve início uma reforma para transformá-la em um centro cultural e gastronômico.

Em 2015, a vila foi aberta para visitas monitoradas para que a população acompanhe a reforma e ajude a definir o uso do espaço. Sua restauração tem como objetivo conservar as características originais e, ao mesmo tempo, adequá-la ao ambiente urbano. Manter as características originais é manter a memória viva, e prestar tributo a todos aqueles que fizeram parte da história da vila. Segundo Pierre Nora, a memória é a vida, sempre carregada por grupos vivos e, nesse sentido, ela está em permanente evolução, aberta à dialética da lembrança e do esquecimento. (NORA, 1993)

Os Arcos do Bexiga

Localizados nas proximidades do córrego Itororó estão os notáveis Arcos do Bexiga, também conhecidos como Arcos da Rua Jandaia, ou Arcos do Jânio. Fazem parte de uma singular estrutura arquitetônica que representa a história dos imigrantes italianos em São Paulo. Os Arcos foram construídos por imigrantes italianos, derivando o atual nome de Praça dos Artesãos Calabreses.

A princípio, eles não foram edificados com a intencionalidade de se tornarem monumentos. A construção iniciada no ano de 1908 tinha como necessidade impedir o desmoronamento da Rua Jandaia devido às fortes chuvas. Com a expansão da cidade de São Paulo, na primeira metade do século XX, uma série de sobrados foram construídos, ocupando toda a extensão da Rua Jandaia e da Rua da Assembleia. Tudo indica que as construções surgiram por volta de 1930, com investimentos destinados a moradias de aluguel para famílias da classe média.

Nos anos 1950, com a construção da Avenida 23 de Maio sobre o córrego Itororó ocorreram modificações e desapropriações, porém, os sobrados foram mantidos. Em meados dos anos 1960, o então prefeito da cidade, José Vicente Faria Lima, por meio de projetos enviados à Câmara Municipal, a fim de construir uma alça de acesso da Avenida 23 de Maio ao futuro complexo viário que ligaria as regiões leste, central e este, pede a desapropriação e demolição dos sobrados.

Na década de 1980, com a valorização territorial central da cidade, os sobrados, que estavam ocupados desde os anos 1970, devido ao abandono da prefeitura em seu antigo projeto, chamaram a atenção de vários setores, entre eles, arquitetos, ativistas políticos e a mídia, que estava interessada em divulgar os conflitos gerados pela disputa da região. Em 1984, o prefeito de São Paulo Mario Covas decreta e promulga a lei nº 9.725/84, enquadrando o conjunto como zona de uso especial, vinculada à preservação do patrimônio cultural e ambiental da cidade.

No ano de 1987, o prefeito Jânio Quadros conseguiu, na Justiça, a ordem de desocupação e demolição dos sobrados. Quando estes foram demolidos, os Arcos ressurgiram e foram tornados monumentos, com enorme valor histórico atribuído à comunidade italiana da região e a sua memória individual e coletiva. Para Halbwachs, embora a dimensão individual exista, a memória é um fenômeno, acima de tudo, coletivo, de forma que pertencer a uma coletividade, a uma totalidade que ultrapassa o sujeito, é condição decisiva para a construção de memória. Isso não significa que o indivíduo não tenha a capacidade de formar lembranças em condições de isolamento da sociedade, porém, memórias que não foram formadas a partir da relação com o outro costumam ser limitadas e tendem a desaparecer com facilidade, já que o apoio do testemunho de outras pessoas é um elemento fundamental para a manutenção e formatação dessas memórias. “Cada memória individual é um ponto de vista sobre a memória coletiva”. (HALBWACHS, 1990, p. 51)

A Casa de Dona Yayá

Nascida em Mogi das Cruzes, no ano de 1887, Sebastiana de Melo Freire, conhecida como Dona Yayá, pertenceu a uma família da aristocracia paulistana. Segundo o site do Centro de Preservação Cultural (CPC), órgão criado em 2002 pela Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da Universidade de São Paulo, é de sua responsabilidade a formulação de diretrizes e políticas de preservação do patrimônio universitário, assim como o inventário dos bens culturais, fomentando e desenvolvendo programas de valorização e documentação a seu respeito e assessorando processos de restauração, intervenção, incorporação e alienação dos mesmos. A Casa de Dona Yayá, imóvel tombado pelas instâncias municipal e estadual, foi transferida para a USP em 1969 como parte da herança jacente de Sebastiana Melo Freire.

Dona Yayá teve uma vida marcada por tragédias. Segundo o site do CPC, ainda criança, Sebastiana perdeu duas irmãs pequenas, uma delas asfixiada; aos 14 anos perdeu pai e mãe em um intervalo de dois dias; e aos 18 anos perdeu o único irmão, que cometera suicídio durante uma viagem de navio. Sem mais nenhum parente de primeiro grau, Yayá viveu desde a morte dos pais sob a tutela de Manuel Joaquim de Albuquerque Lins (político liberal que exerceu a gestão de São Paulo entre 1908-1912), recomendado pelo próprio pai em testamento e foi interna no tradicional colégio Nossa Senhora de Sion, frequentado pelas moças da elite paulistana.

            Em 1919, após apresentar recorrentes sinais de desequilíbrio emocional, Dona Yayá foi internada em um hospital psiquiátrico. Parentes próximos e seu tutor seguiram a orientação dos médicos de continuar o tratamento em casa, onde teria mais conforto.  Para recebê-la, foi comprada uma casa na Rua Major Diogo (antigo número 37, hoje o número 353, no bairro da Bela Vista). A região era, à época, uma área de chácaras afastada da agitação do centro da cidade, onde até então residira Dona Yayá – um palacete na Rua Sete de Abril. Nessa nova casa Yayá viveu reclusa até seu falecimento, em 1961, passando a maior parte do tempo encerrada nos aposentos adaptados para sua segurança, cercada por parentes distantes, amigos e empregados.

            A história de Dona Yayá instiga a curiosidade e a imaginação dos que dela ouvem falar: ora é apresentada como a “louca do Bexiga”, ora como vítima incompreendida pela moral da época na qual viveu.

A Escadaria do Bexiga

Construída em 1929 pelo prefeito Pires do Rio a obra tinha o propósito de ligar a Rua 13 de Maio ao Morro dos Ingleses. A Escadaria foi tombada pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo – CONPRESP, pela Resolução nº 22/2002, cuja permanência e ampliação é fundamental para a manutenção da identidade do bairro.

            A partir de 1878, a Chácara do Bexiga foi loteada e vendida para os imigrantes italianos, como citamos anteriormente. O Morro que ficava acima da Rua 13 de Maio era desabitado e, por esse motivo, em 1898, imigrantes ingleses e escoceses escolheram o lugar para estabelecer o São Paulo Country Club para a prática do golfe. Próximo à Avenida Paulista, local dos casarões dos barões de café, o campo de golfe passou a ser visitado por diversas famílias. Por situar-se na parte mais elevada, o local ficou conhecido como Morro dos Ingleses, cuja denominação permanece até hoje.

A construção da Escadaria incorporou o Morro dos Ingleses ao Bexiga, e ‘uniu’ a classe alta com a classe baixa do bairro. Em 2006, a obra, com 84 degraus e 16 metros de altura foi restaurada e parte custeada por indenização de R$ 60 mil reais, pagos por empresários da região por terem causado danos ao patrimônio histórico.

A Rua dos Ingleses e o MUMBI

Com início na Rua Conselheiro Carrão e término na Av. Brigadeiro Luís Antônio, a Rua dos Ingleses fica no atual Morro dos Ingleses, e teve a oficialização de denominação pelo ATO Nº 972, de 24 de agosto de 1916, ATO Nº 1251, de 06 de agosto de 1918 (oficializa o nome) e o Decreto nº 15.635, de 17 de janeiro de 1979 – esta última confirma as legislações anteriores. Nesta rua se localizam o Hospital Menino Jesus, o Teatro Ruth Escobar, a Escadaria do Bexiga, o Museu dos Óculos e o MUMBI – Museu Memória do Bexiga.

Segundo Nora (1993), os lugares de memória pertencem a dois domínios, que os tornam interessantes, mas também complexos: simples e ambíguos, naturais e artificiais, imediatamente oferecidos a mais sensível experiência e, ao mesmo tempo, sobressaindo da mais abstrata elaboração.

A Rua dos Ingleses faz com que eu relembre o ano de 1999, no qual estive no Teatro Ruth Escobar para assistir à peça Alma de Todos os Tempos, do diretor Gabriel Villela e contracenada pelo ator Eriberto Leão. Mais uma vez as minhas memórias são voltadas à experiência sensível musical, e não às origens italianas ligadas aos meus familiares. O meu Bexiga é mais Rock do que “Massa”.

O Museu Memória do Bexiga está localizado em São Paulo, no bairro do Bexiga, na Rua dos Ingleses, 118. Foi aberto em 1981 e concebido pelo promoter mais icônico do bairro, o agitador cultural Armandinho Puglisi (1931-1994), e apresenta objetos que contam a história dos imigrantes italianos na região. Está instalado numa casa construída no início do século XX. Muitos itens expostos foram doados pelo próprio Armandinho, como era conhecido. Bicicletas, máquinas de fazer macarrão e garrafas onde eram entregues os leites de porta em porta são alguns dos objetos. “Eu não tinha nem noção do que era um museu de verdade”, disse Armandinho em entrevista.

A partir dessa parte do artigo a nomenclatura Bexiga será substituída por Bixiga, pois, segundo Armandinho, em 1963, no jornal O Bixiga e, pela primeira vez na vida viu escrito “Bixiga”; como ninguém pronunciava Bexiga, copiou a ideia. Armandinho também foi presidente do Vai-Vai, escola de Samba criada na região do Bixiga. Anterior à criação dos sambas-enredo, os integrantes do Cordão Vai-Vai cantavam a seguinte música: “Quem nunca sambou na vida. Primeira vez que conheceu foi no Bixiga”. Outro motivo para trocar o “e” pelo “i”.

No início do século XX, próximo ao cruzamento das ruas Rocha e Uma, no Bixiga, de longe se viam as camisetas em preto e branco do time de futebol e se ouviam os batuques do bloco carnavalesco Cai-Cai. Um pouco mais tarde, em 1928, Livinho, Benedito Sardinha e seus amigos começaram a puxar, ao seu estilo, os jogos e festas realizados pelo bloco. Com as chamadas arruaças e excessos dos festejos foram apelidados de “a turma do Vae-Vae” o que os levou à expulsão do Cai-Cai. Criaram o “Bloco dos Esfarrapados” e, paralelamente, o Cordão Carnavalesco e Esportivo Vae-Vae, oficializado em 1930 com as cores preto e branco invertidas, como afronta ao Cai-Cai.

A ideia de criar um museu para o bairro do Bixiga surgiu por volta de 1970, quando Armandinho decidiu fazer bastante “buchicho” para chamar a atenção das autoridades a fim de que percebessem o potencial turístico do bairro. Para promover o lugar eram organizadas dez festas por ano. Em 1980, Armandinho pensou em encontrar uma casa para fazer o museu, divulgar o bairro e mostrar as peculiaridades do Bixiga. Ao longo dos anos, Armandinho acumulou muitas fotos de sua família e quando perceberam que a “coisa era “séria”, um ano após a criação do museu, o bairro inteiro começou a levar objetos. “Um depositório de mortos. É duro jogar coisa de morto fora. Então, morre uma pessoa tradicional do bairro, a família junta tudo e quando eu dou fé já está tudo empilhado no terraço. Então, a importância deste museu é significativa, porque 10 mil fotos recebidas, se ele não existisse, muitas delas já estariam no lixo”, diz Armandinho em entrevista.

O acervo conta com cerca de 10 mil fotos e documentos dos antigos moradores do Bixiga e aproximadamente 1.900 objetos, como uma sapatilha que pertenceu à Carmen Miranda, um chapéu e uma gravata-borboleta de Adoniran Barbosa, itens da Vai-Vai, uma geladeira e uma cadeira de dentista do começo da década de 1920, vários utensílios de cozinha, chapéus, bicicleta antiga, móveis, luva de boxe, navalhas e medalhas. Depois de alguns anos funcionando na residência de Puglisi, o museu foi removido para outra casa na Rua dos Ingleses, onde está instalado até hoje. O imóvel foi construído por um imigrante italiano entre 1920 e 1930, que teria vivido ali até a morte. E, como ele não tinha herdeiros, a propriedade passou a pertencer à União Federal. O lugar ficou abandonado até a fundação do MUMBI e era frequentado apenas por usuários de drogas.

Para ajudar nas despesas da instituição Armando e sua esposa, uma cozinheira de mão cheia, criaram uma cantina italiana na parte de trás do imóvel. Todo dia 29 de cada mês o restaurante organizava a tradicional festa do “nhoque da fortuna”, momento no qual as pessoas tinham de colocar uma nota de dinheiro debaixo do prato para ter bonança no futuro.

Armandinho faleceu em 1994 em decorrência de um câncer e como ele era a figura central, o museu começou a ter dificuldades e conseguir pagar suas despesas, o que levou ao encerramento de suas atividades.

Em 2016, a diretoria Diego Vieira assumiu a diretoria da instituição que logo percebeu as dificuldades para reabrir o MUMBI. “Apesar de estar em um prédio tombado pela União, o espaço não recebe qualquer forma de incentivo público – ou privado – e ainda precisa de muitas readequações”. Em 2017, voluntários fizeram uma higienização no museu para a sua reabertura. Através de agendamentos prévios, as visitas voltaram a acontecer. Desde então, a instituição tem procurado parcerias para catalogação do acervo.

No ano de 2020, devido à pandemia da COVID-19, o MUMBI serviu marmitas para as pessoas em situações de risco, contando com a ajuda de moradores do bairro. Foram mais de 15 mil refeições entregues durante a pandemia.

Em abril de 2021, após uma tentativa frustrada, consegui fazer uma visita ao MUMBI. Fui recepcionado pelo zelador do imóvel, o senhor Cícero, pessoa de muito bom grado, que me deixou como se estivesse em minha casa. Abriu todas as portas do imóvel e deu-me a liberdade de usufruir e apreciar não somente da história do bairro, como também pude apreciar objetos referentes à história do Brasil.

O primeiro andar contém objetos ligados à imigração italiana na região, como máquinas, fotos de famílias e móveis utilizados por moradores do bairro. Em uma sala do primeiro andar, tomei a liberdade de chamá-la de “sala da memória musical”. Nela encontram-se o chapéu e o cachecol de Adoniran Barbosa, um dos mais importantes nomes da música brasileira. Nascido em 1910, na cidade de Valinhos, com o nome de João Rubinato, veio morar em uma pensão no Bixiga na Rua 14 de Julho, onde conheceu a sua primeira esposa, Olga Krum, e casou-se na Igreja de Nossa Senhora Achiropita, em 1936. Sua memória está materializada na Praça Dom Orione, onde um busto foi construído em sua homenagem, em uma via com o seu nome, oficializado pelo decreto nº 18.425 de novembro de 1982, um dia após a sua morte. Outros objetos que chamaram a atenção foram alguns discos do cantor Agostinho dos Santos, nascido no Bixiga em 1932 e imortalizado na voz de Milton Nascimento pela música Travessia, algumas peças de roupas e um estandarte pertencente à velha guarda da Vai-Vai.

O segundo andar do MUMBI foi o que mais chamou a minha atenção. Dividido em três cômodos (banheiro e dois quartos), há diversos objetos, alguns em caixas, e a grande maioria em prateleiras. Dentre placas, skates, roupas, artefatos carnavalescos, livros e quadros, três objetos deixaram-me atônito: um pote de memórias, com textos escritos por diferentes pessoas, um troféu e uma chuteira, possivelmente de Luís Matoso, conhecido por Feitiço. Nascido em 29 de setembro de 1901, em São Paulo, Feitiço foi criado no bairro do Bixiga e se tornou um nome importante para a história do futebol e, como artilheiro, com mais de 400 gols computados. Digo possivelmente, pois os objetos não estão legendados e catalogados, porém, o primeiro título na carreira de Feitiço foi pelo extinto São Bento da capital, o campeonato paulista de 1925. Por ser nascido no bairro, acredito que os objetos pertenceram ao saudoso artilheiro.

O futebol pode ser visto como parte da construção de nossa identidade, visto que os jogadores, sendo profissionais ou não, criam laços de pertencimento aos locais onde começaram a praticar o esporte. Quando menino, eu jogava os mais eletrizantes “contras”, uma espécie de duelos entre ruas, mais conhecidos como “rua de cima contra a rua de baixo”. Eram batalhas épicas, que ainda estão em minhas memórias, e acredito que estejam nas memórias de todos que vivenciaram aquelas “batalhas”.

A rua era o campo, pedras eram as traves, as guias eram as demarcações do campo, transeuntes eram os espectadores, e o troféu era uma garrafa de Coca-Cola, oferecida pelo time derrotado. Éramos todos amigos, estudávamos na mesma escola e nossas mães amavam cada um como se fosse o seu filho. Mas em nossas “batalhas” nos tornávamos bestas sedentas por vitórias. Quem vencia o jogo levava consigo o status de melhor do bairro, e de pertencer a rua vencedora.

Segundo Pollak, existem três elementos para a construção da identidade: há a unidade física, ou seja, o sentimento de ter fronteiras físicas, no caso do corpo da pessoa, ou fronteiras de pertencimento ao grupo, no caso de um coletivo; há a continuidade dentro do tempo, no sentido físico da palavra, mas também no sentido moral e psicológico. Finalmente, há o sentimento de coerência, ou seja, de que os diferentes elementos que formam um indivíduo são efetivamente unificados. Ao ver as chuteiras de Feitiço e um troféu, vi o quanto é importante manter a memória e como esta nos remente ao sentimento de pertencimento. Até hoje eu ando pelas ruas e me lembro das nossas “batalhas”, e sei à qual rua eu pertenço:

A memória é um elemento constituinte do sentimento de identidade, tanto individual como coletiva, na medida em que ela é também um fator extremamente importante do sentimento de continuidade e de coerência de uma pessoa ou de um grupo em sua reconstrução de si.

(ROSSI apud POLLAK, 2010, p. 204)

Ainda na linha de Pollak, não podemos manter um longo silêncio sobre o passado. Já o “pote de memórias’ que ali encontrei registra uma série de memórias individuais para a construção da memória coletiva. Diversas folhas de sulfite com o título “pote de memória ‘de… para’ virão à memória de qualquer cidadão que visitou o museu. Logo abaixo, em todas as folhas continha a frase “Eu me lembro…” para escrever as memórias individuais. “As memórias e os museus são feitos pelas pessoas, são lugares de transformação e ação, ou lugar de todos”, são algumas das frases registradas nos potes. Em suma, não vi apenas papéis com simples dizeres, vi a materialização de memórias para se evitar o esquecimento.

Considerações finais

Mesmo em tempos difíceis, com tantas adversidades e dificuldades, essa pesquisa foi extremamente satisfatória e prazerosa e foi gratificante pesquisar as memórias que envolvem o bairro da Bela Vista, ou a região conhecida por Bexiga, ou do “Bixiga”, como dizia o saudoso Armandinho, além de ver surgir e reconhecer memórias que estavam escondidas, sejam as minhas ou as de outras pessoas. Essas memórias não devem jamais ser esquecidas ou se esconderem em objetos inanimados, apenas com o seu valor de uso por isso se torna sempre imprescindível buscar nossas origens através das memórias, o que é uma tentativa de resgatar parte da História e mantê-la viva.

Consideradas partes da formação cultural da cidade de São Paulo, e de diversos segmentos da sociedade que propiciaram momentos ricos dentro de uma região que não existe de maneira legal, não são apenas memórias; essas que, se depender de nós, jamais serão esquecidas.

Se ter memória é constituir um patrimônio cultural fica claro o quanto nosso legado mapeia nosso passado a fim de que possa potencializar o futuro para preservar e, consequentemente, ser valorizado.

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