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Dorinha… Uma jovem operária contra a Ditadura Militar.

Fonte: PRESSÕES e Nervosismo. Jornal Movimento, nº 5, p. 11, 04 ago. 1975.

Eribelto Peres Castilho


No dia 5 de outubro de 1975, a jovem operária Maria das Dores Belmiro, mais conhecida como “Dorinha”, 19 anos, que trabalhava na RCA Victor[1] e era querida na favela da Cidade Industrial onde morava desde que chegou à capital Belo Horizonte, vinda do interior, morreu atropelada por um Volkswagen amarelo que fugiu sem que ninguém anotasse a placa.

À notícia desse trágico episódio, publicada na 17ª edição do jornal Movimento, seguia-se uma impactante revelação contida já no subtítulo – “Dorinha, operária da RCA Victor em Belo Horizonte, poucos dias antes de morrer atropelada, escreveu um depoimento sobre seu trabalho na fábrica”.

No pequeno, porém revelador depoimento deixado com sua companheira de quarto, cujo conteúdo fora publicado na íntegra pela matéria “NA FÁBRICA”[2], publicada na seção “Gente Brasileira” da 17ª edição do jornal Movimento, Dorinha assim descrevia os sonhos e as impressões iniciais que a trariam do interior:

“Vim para Belo Horizonte sonhando trabalhar em fábrica. Rodei toda a Cidade Industrial tentando conseguir trabalho. Entre as poucas fábricas que admitiam moças, duas eram as que mais me atraiam, principalmente a RCA. Também pudera! Eu tinha uma amiga que trabalhava lá há dez anos. Andava muito bem vestida. Falava muito bem da fábrica. E a fachada exterior da fábrica aos meus olhos era atraente: um gramado sempre verdinho, muitas árvores, e quando a gente passava por lá na hora do almoço via aquele montão de moças, todas de branco, assentadas nos banquinhos no meio da grama. Tinha assim a impressão de um verdadeiro paraíso. Pedi a essa amiga para conseguir trabalho lá para mim. Como tinha muita gente na fila, só depois de sete anos consegui”.[3]

Depois de sete anos de ansiosa espera, eis a grande “chance” de Dorinha trabalhar na RCA Victor. No dia de sua admissão ficara impressionada com o tratamento que a empresa oferecia aos “novatos” relatando sua primeira impressão no contato inicial com o “moderno” setor de recursos humanos da empresa:

“A psicóloga faz o pessoal falar o que quer e o  que não quer. Queria saber todas as coisas que eu fazia: se eu gostava de dançar, de passear, de ir a piquenique, se tinha amigas, se estudava, como eu conheci a menina que tinha me apresentado. Tudo, enfim, sobre a minha família, o que ela fazia etc. etc. etc… Aí a gente fica com a impressão que a empresa se interessa muito pelo bem estar da gente. Depois, ela começa falar sobre a fábrica, que era para a gente se orgulhar de pertencer ao quadro da empresa, pois esta tinha muito prestígio no mundo inteiro. Falou do que ela fabricava em outros países, dos aparelhos que saiam da sua produção. Durante esta apresentação que foi de sete da manhã às 16 e 30 horas, a gente viu grupos de meninas que passavam de braços dados, dando a impressão que o ambiente de trabalho era muito bom. Falou do clube de festas, do serviço médico. Falou também que se começava ganhando salário mínimo, mas que de quatro em quatro meses eles davam aumento”.[4]

No entanto, esse aparente quadro idílico da Fábrica RCA Victor, representado pelo atraente gramado sempre verdinho de sua fachada externa e pela atenciosa e motivadora psicóloga, logo se desvanece no próprio depoimento de Dorinha, donde passados quatro anos de ingresso na empresa, sua impressão é bem diferente daquele primeiro dia de admissão:

“Hoje, depois de quatro anos a coisa está diferente. As apresentações não vão longe. Do jeito que a gente entrou vai sair, pois o serviço que se faz aqui não se faz em outra empresa. Só existe uma outra em São Paulo. As armas que eles têm é a insegurança do pessoal em relação a outro emprego, pois não se sabe fazer nada diferente. Quando, por ventura, alguém pede para sair, eles tentam segurar dizendo que não vai conseguir outro emprego, que antes pingar que secar”.[5]

Como se vê, a “fidelidade” do “pessoal” ao trabalho fabril na RCA Victor deve-se, segundo a interpretação de Dorinha, à insegurança, constantemente estimulada pela empresa, de não encontrar outro emprego, pois o serviço que se faz aqui – prossegue ela – não se faz em outro lugar.

Mas então, que “serviço” é esse afinal?

 Dorinha, com a clareza peculiar de quem viveu cotidianamente no infernal chão de fábrica, descreve o trabalho estranhado[6], a superexploração e a opressão à que se sujeitava diariamente:

“Desde que entrei só faço um tipo de operação numa mesma peça, alinhamento. É o seguinte: sentada junto a uma mesa recebo as bandejas contendo as peças; retiro-as, coloco no dispositivo, faço cinco soldas, volto no microscópio, alinho e vou colocando em outra bandeja à direita. Se a gente faz menos, recebe sérias advertências, inclusive demissão. Na minha função a produção é de duzentas peças por hora, quer dizer quase duas mil diárias. Cada peça que faço custa no mercado Cr$ 30,00 e ganho 17,00 por dia. Se passo serviço com algum defeito vêm, além dos chefes diretos, os engenheiros e técnicos e passam o maior sabão. Não posso levantar do lugar e nem conversar. Para cada grupo de 15 meninas tem a supervisão e mais dois chefes. Trabalho das sete da manhã às 17 e 30 horas. Só uma hora de almoço. Não temos lanche e nem podemos levar nada para comer. Férias só quando a empresa quer. Os chefes são muito autoritários. Durante a experiência, a gente tem que dar a produção, senão é mandado embora. Durante todo o dia eles põe música orquestrada dos mais variados tipos, mas o ritmo é sempre o mesmo”.[7]

Essa opressão do chão de fábrica – refinado com expedientes um tanto quanto excêntricos (como a música orquestrada, por exemplo) – fica evidente no final do depoimento de Dorinha donde, ao contrário de sua impressão inicial da fábrica como um “verdadeiro paraíso”, com “gramado sempre verdinho”, descreve a mesma como uma sorte de hospício ou prisão: “Há meninas – prossegue ela – que comparam a fábrica com hospício, outras com prisão. Não existe uma janela, a gente fica isolada. Estas condições trazem sérias consequências: o mais deprimente é o desequilíbrio mental. Sempre tem pessoas afastadas por este motivo”.[8]

Todavia, mesmo frente às desilusões, intimidações e opressão cotidiana experimentada, a corajosa Dorinha não tombava resignada. Como que se reanimando a lutar ainda mais, a jovem operária terminava seu depoimento com uma frase bastante otimista – “Só a esperança de uma total mudança dá forças pra gente continuar”.[9]

Engels, em sua obra clássica A situação da classe trabalhadora na Inglaterra, já havia notado, quando de sua convivência com operários ingleses, que uma vez experimentando “pessoalmente uma vida mais penosa, são capazes de sentir compaixão pelos que tem dificuldades. Para os operários, qualquer homem é um ser humano; para os burgueses, o operário é menos que um homem. Por isso, os operários são mais sociáveis, mais amáveis”.[10]

A observação de Engels, ressalvadas as particularidades históricas, também poderia ser facilmente aplicada à Dorinha.

A missa de corpo presente celebrada por Dorinha foi assistida por quase todos os moradores da Vila Dom Carmélio e por isso teve que ser celebrada no quintal da pequena capela. Ao enterro seguiram-se alguns ônibus, Kombis, táxis e automóveis, e se cantava “Fica mal com Deus[11], “Se a Mão Livre do Negro[12] (Dorinha era negra) e sobretudo “Funeral do Lavrador[13].

Durante a celebração da missa “algumas vozes, secas e pausadamente, se levantaram para homenagear Dorinha”[14]. Dentre as falas anônimas transcritas pela matéria, duas delas resumiam bem a incansável luta de Dorinha, bem como àquele característico sentimento de compaixão à que Engels se referia:

– Dorinha ensinou-me a ter fé, muita fé. Porque mesmo quando as coisas iam mal, mantinha-se firme, corajosa, diante das intimidações e pressões a querer barrar seu trabalho. Acreditava nas pessoas e na possibilidade de conversão e mudança, mesmo os mais decaídos e escravizados. Sofria os sofrimentos de cada companheira de trabalho e de toda classe. A ponto de padecer de amor dessa mesma classe. Soube sofrer, não como num beco sem saída, mas reanimando-se para lutar ainda mais.

– Vivo com Dorinha uma experiência de quatro anos, que representa para mim muito mais do que quatro anos. No nosso dia a dia aprendi muito com ela: sua maneira aberta de se amar, sorrir, cantar, no seu compromisso com a realidade, com suas companheiras de trabalho, com todo o povo. A fé que tá dentro da gente é que nos leva a avançar sempre mais um passo, a descobrir os valores que existem na vida e devem ser descobertos por todos os nossos companheiros. E é através desta vida em comum que temos que a Dorinha tá presente. Vai continuar infinitamente. A esperança, a vida não acaba e Dorinha prá mim significa sempre isto: vida, esperança, confiança na pessoa e desejo de mudança. Ela hoje, assim, como nós, não lamenta apenas a sua morte física, seu maior lamento está no fato de se ver limitada de continuar no mesmo caminho que assumiu com os seus companheiros.[15]

A aguerrida luta dessa jovem operária vinda do interior, não apenas era digna de respeito e admiração das companheiras de trabalho e dos moradores da favela da Cidade Industrial onde morava, mas já há algum tempo, desde fins 1971, também passou a ser motivo de preocupações, sendo constantemente monitorada pela polícia política Mineira.

Em 14 de novembro de 1972, o setor de Registro e Controle dos empregados da RCA Eletrônica Ltda. encaminhava um intrigante ofício (Imagem 1) ao Departamento de Ordem Política e Social de Belo Horizonte (DOPS-MG):

Imagem 1 – Ofício encaminhado pela RCA Eletrônica Ltda., solicitando ao DOPS Mineiro informações sobre a jovem operária Dorinha. Fonte: Documento 19 da Pasta 4226 (Dados da Pasta – Descrição: nº 4226; Rolo 057; Data: set. 1971 – jan. de 1973; Imagem: 151; Título: Encaminhamentos diversos). In: Arquivos da Polícia Política (acervo do período de 1927 a 1982).[16]

A data 22/12/71, tomada por marco inicial na solicitação do encarregado L. C. Fróes coincidia com o período de contratação de MARIA DAS DORES BELMIRO pela RCA Victor. Não bastasse o amplo rol de documentos exigidos e os humilhantes exames realizados quando de sua admissão[17], o “precavido” setor de Registro e Controle dos empregados da RCA Eletrônica Ltda. solicitava ao DOPS outras informações mais “relevantes” para a atualização do prontuário de “Dorinha”, obtendo a resposta em apenas 7 dias (21 de novembro de 1972).

Essa zelosa “preocupação” do setor de Registro e Controle dos empregados da RCA com a “atualização”, pelo DOPS-MG, do prontuário de Dorinha, com certeza não se tratava de um mero procedimento burocrático, afinal, não fora nesse intrigante ofício da RCA, de 14 de novembro de 1972, que o nome da jovem operária MARIA DAS DORES BELMIRO aparecera pela primeira vez nos registros do DOPS-MG.

Às vésperas do ano novo, em 29 de dezembro de 1971, o jovem auxiliar de escritório da Siderúrgica Belgo Mineira, Sálvio Humberto Penna, 28 anos, natural de Sabará (MG), suspeito de vinculações com a organização Ação Popular Marxista Leninista (APML), era interrogado no Departamento de Polícia Política de Belo Horizonte pelo Major da Infantaria Casemir Vieira, encarregado pelo inquérito, e pelo 2º Sargento, Everaldo Ferreira, servindo de escrivão. Em dois momentos, do longo “TERMO DE PERGUTAS AO INDICIADO SÁLVIO HUMBERTO PENNA”[18], tem-se a menção ao nome MARIA DAS DORES BELMIRO, inclusive a seu apelido – “Dorinha”. A certa altura, após Sálvio Humberto Penna ter “supostamente confessado”[19] que fora “ampliado”[20] à organização Ação Popular, assim consignava o tal “TERMO DE PERGUTAS AO INDICIADO…”:

“MARIA DO CARMO FERREIRA, digo, MARIA do “CARMO”, mora na avenida XI esquina com rua J, no bairro JE [Jardim Eldorado], funcionária da RCA Víctor, não quis participar da organização; MARIA DAS DORES, apelidada de Dorinha, foi apresentada ao depoente por MARIA DO CARMO, também não quis participar da organização; frequentava a casa do depoente e participava do Movimento de Juventude de bairro Inconfidentes.[21]

Depois de Sálvio Humberto Penna ter, supostamente, “fornecido” os nomes, e codinomes da nova e antiga composição das regionais e seccionais da organização, agora denominada AP-ML, mas uma vez o nome de Dorinha aparecia em seu depoimento:

“o depoente [Sálvio H. Penna], embora não possua nenhum exemplar dos Estatutos da organização clandestina e subversiva denominada AÇÃO POPULAR MARXISTA LENINISTA, já os leu e concorda como os objetivos nele definidos; que, o objetivo dos Estatutos da APML [Ação Popular Marxista Leninista] é realizar uma “revolução democrática popular” que vise a derrocada do governo e das instituições e, consequentemente o estabelecimento de uma ditadura de classe; que, para a consecução de tais objetivos recorrer-se-ia, inclusive, a luta armada; que, o depoente forneceu os Estatutos da AMPL para MARIA DAS DORES (apelidada de Dorinha) e MARIA DO CARMO LARA, para que elas tomassem conhecimento da estrutura da APML, que, o depoente sabe que a AÇÃO POPULAR MARXISTA LENINISTA DO BRASIL é uma organização clandestina, ilegal, de caráter subversivo, que está estruturada sob a orientação comunista chinesa; que, o depoente, para catequizar novos adeptos para APML, distribuía livros e panfletos que professavam a ideologia comunista; que, o depoente era dirigente de uma célula de base, que operava no bairro JE [Jardim Eldorado], nesta cidade, tendo como função específica a divulgação da doutrina comunista entre os operários metalúrgicos”.[22]

Em 05 de janeiro de 1972, cerca de uma semana depois de ser citada no interrogatório de Sálvio Humberto Penna, a jovem estudante da Faculdade de Serviço Social da Universidade Católica de Minas Gerais, Maria Rozângela Batistoni, 22 anos[23], também era interrogada na presença do já citado Major da Infantaria, Casemir Vieira, encarregado pelo inquérito, e do 2º Sargento Everaldo Ferreira, escrivão. O “TERMO DE PERGUTAS À INDICIADA MARIA ROZÂNGELA BATISTONI[24], muito semelhante daquele assinado pelo indiciado Sálvio Humberto Penna na semana anterior, assim consignava:

“Perguntada sobre o que tem a declarar com relação aos fatos que deram origem ao presente inquérito, e, mais precisamente, relacionados com as suas vinculações com a organização clandestina e subversiva denominada AÇÃO POPULAR MARXISTA LENINISTA (APML DO B), respondeu que no ano de 1969 ingressou na Faculdade de Serviços Sociais (sic!) da Universidade Católica de Minas Gerais e que até abril de 1970 não desenvolveu qualquer atividade de caráter política; que no início de 1970 a depoente frequentava a Igreja Nossa Senhora da Piedade, na Cidade Industrial, onde participava do grupo de reflexão bíblica, grupo esse constituído de operários”.[25]

Mais à frente, após a estudante Maria R. Batistoni “supostamente ter confessado” que fora “ampliada”[26] à Ação Popular em fins de maio de 1970, e “fornecer” alguns dos nomes e codinomes de antigos companheiros da organização, assim prosseguia seu depoimento:

“após o último contato com MARCOS JOSÉ BURLE DE AGUIAR (HERMES), em meados de fevereiro de 1971, a depoente se desligou completamente da organização; que a depoente conhece ainda as seguintes pessoas, além das já citadas neste depoimento: MARIA DAS DORES BELMIRO, apelidada de DORINHA, MARIA DO CARMO, sendo que estas não são militantes nem simpatizantes da AP”.[27]

Apesar das insistentes afirmações, nos dois interrogatórios citados, de que Dorinha não tinha qualquer vinculação com a organização Ação Popular Marxista Leninista, não há dúvidas de que sobre ela pesara sempre a suspeita; como o comprova o já citado ofício encaminhado pela RCA ao DOPS-MG, em 14 de novembro de 1972.

Somente agora, depois de cotejada a trajetória de luta da jovem operária Dorinha com os documentos do DOPS mineiro, aquela triste notícia de seu trágico atropelamento por um Volkswagen amarelo – que fugiu, sem que ninguém anotasse a placa – tornara-se mais inteligível.

Ainda que essa terrível notícia[28], provavelmente em virtude da censura prévia ao jornal Movimento, passesse quase despercebida numa primeira leitura da matéria intitulada “NA FÁBRICA”[29], não havia dúvidas de que ela expressasse uma forte suspeita, possivelmente difícil de provar naquela época: o de que o atropelamento de Dorinha naquele domingo, dia 05 de outubro de 1975, não fora um mero acidente.


[1] A Radio Corporation of América (RCA) tratava-se de uma empresa americana, fundada em 1929, que fora uma das pioneiras no setor de telecomunicações. No mesmo ano (1929), a RCA adquiriu a Victor Talking Machine Company, empresa fundada em 1900, nascendo a RCA Victor. Além do famoso e mais antigo selo fonográfico da América, representado pelo logotipo de um cachorro que olha atentamente para uma concha acústica de um fonógrafo, a RCA Victor atuava também na produção de produtos eletrônicos, tais como os produzidos pela RCA Eletrônica Ltda. do Brasil, importante empresa integrante do setor de bens de consumo duráveis do país. Em 1987, a RCA Victor foi vendida ao grupo alemão Bertelsmann, a BMG, passando a se chamar BMG/Ariola e mais tarde BMG. Em 2004, houve a fusão da BMG com a Sony Music, formando assim a Sony BMG. Em 2008, o grupo Bertelmann vendeu sua parte à Sony Music que a rebatizou apenas como Sony Music.

[2] NA FÁBRICA. Jornal Movimento, nº 17, p. 5, 27 out.1975.

[3] Idem

[4] Idem

[5] NA FÁBRICA. Jornal Movimento, nº 17, p. 5, 27 out.1975.

[6] “(O estranhamento do trabalhador em seu objeto se expressa, pelas leis nacional-econômicas, em que quanto mais o trabalhador produz, menos tem para consumir; que quanto mais valores cria, mais sem-valor e indigno ele se torna; quanto mais bem formado, tanto mais deformado ele fica; quanto mais civilizado seu objeto, mais bárbaro o trabalhador; que quanto mais poderoso o trabalho, mais impotente o trabalhador se torna; quanto mais rico de espírito o trabalho, mais pobre de espírito e servo da natureza se torna o trabalhador.). A economia nacional oculta o estranhamento na essência do trabalho porque não considera a relação imediata entre o trabalhador (o trabalho) e a produção. Sem dúvida. O trabalho produz maravilhas para os ricos, mas produz privação para o trabalhador. Produz palácios, mas cavernas para o trabalhador. Produz beleza, mas deformação para o trabalhador. Substitui o trabalho por máquinas, mas lança uma parte dos trabalhadores de volta a um trabalho bárbaro e faz da outra parte máquinas. Produz espírito, mas produz imbecilidade, cretinismo para o trabalhador”. (Grifos no Original) MARX, Karl. Manuscritos Econômico-Filosóficos. (Trad. e Notas de Jesus Ranieri). 1ª ed. São Paulo: Boitempo Editorial, 2004, p. 82. Para um maior aprofundamento da categoria estranhamento (Entfremdung), tal como concebido por Marx, ver: COSTA, Mônica. A Diferença Entre as Categorias Lebensäusserung, Entäusserung, Entfremdung, Veräusserung nos Manuscritos Econômicos Filosóficos de Karl Marx de 1844. 1999. 99p. Dissertação (Mestrado em Filosofia) – Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Belo Horizonte. 1999; ROCHA, Danielle Franco. Estranhamento (Entfremdung) no trabalho: o Unibanco na virada dos anos 90. 2006. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) – Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). São Paulo. 2006.

[7] NA FÁBRICA. Jornal Movimento, nº 17, p. 5, 27 out.1975.

[8] Idem

[9] Idem

[10] ENGELS, Friedrich. A Situação da classe trabalhadora na Inglaterra. (Trad. B. A. Schumann). São Paulo: Boitempo, 2008, p.163.

[11] VANDRÉ, Geraldo. Fica mal com Deus. Interprete: Geraldo Vandré. São Paulo. 1964. Áudio disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=pIphQHs-d1E.

[12] LOBO, Edu. Se a Mão Livre do Negro. Interprete: Edu Lobo e elenco Arena Canta Zumbi. São Paulo. 1965. Áudio disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Z3fsnKa6AX8

[13] HOLLANDA, Francisco Buarque. Funeral de um Lavrador. Interprete: Chico Buarque de Hollanda. São Paulo. 1966. Áudio disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=BnVbz6dtgg0&feature=kp. Ver ainda: GARCIA, Walter. Apontamentos sobre uma canção para teatro: “Funeral de um Lavrador”. Revista Literatura e Sociedade. (Universidade de São Paulo – USP). Disponível: http://www.revistas.usp.br/ls/article/viewFile/64553/67198. Acesso em: 20 mar. 2015.

[14] NA FÁBRICA. Jornal Movimento, nº 17, p. 5, 27 out.1975.

[15] Idem

[16] Documento 19 da Pasta 4226 (Dados da Pasta – Descrição: nº 4226; Rolo 057; Data: set. 1971 – jan. de 1973; Imagem: 151; Título: Encaminhamentos diversos). In: Arquivos da Polícia Política (acervo do período de 1927 a 1982). Arquivo Público Mineiro. Disponível em: http://www.siaapm.cultura.mg.gov.br/modules/dops_docs/photo.php?numero=4226&imagem=1566 Acesso em: 03 fev. 2014.

[17] “Para me admitirem – observa Dorinha – exigiram também exames de vista, sangue, urina, fezes e, por último, um exame geral que é o médico da empresa que faz, onde a gente tem que ficar quase nua. Além dos exames, exigiram os seguintes documentos: folha corrida, atestado de bons antecedentes, título de eleitor, diploma do primário (se tiver o ginásio não serve), carteira profissional e uma carta de apresentação do último emprego”. Idem

[18] Documentos 54 a 59 da Pasta 0046 (Dados da Pasta – Descrição: nº 0046; Rolo 005; Data: dez. 1971 – jul. 1972; Imagem: 296; Título: Ação Popular Marxista-Leninista). In: Arquivos da Polícia Política (acervo do período de 1927 a 1982). Arquivo Público Mineiro. Disponível em: http://www.siaapm.cultura.mg.gov.br/modules/dops_docs/photo.php?numero=0046&imagem=57 Acesso em: 05 fev. 2014.

[19] Importa registrar aqui que sempre que nos referirmos a trechos dos depoimentos dos trabalhadores consignados no “TERMO DE PERGUTAS AO INDICIADO” do DOPS-MG, utilizaremos as expressões “supostamente confessado”, “supostamente fornecido”, como forma de frisar que, de fato, não se tratava de uma “confissão” dada de forma espontânea, mas “arrancada” mediante a tortura. Mesmo não sendo possível nesse trabalho colher provas de que o Major da Infantaria Casemir Vieira e o 2º Sargento, Everaldo Ferreira, valeram-se de meios como a tortura para obter as “supostas confissões” de seus interrogados, estamos quase certos que a história, muito provavelmente, não os absolverá. 

[20] Conforme consignado nos próprios documentos do DOPS, o termo “ampliação” significava o ingresso da pessoa na organização.

[21] Documento 56 da Pasta 0046 (Dados da Pasta – Descrição: nº 0046; Rolo 005; Data: dez. 1971 – jul. 1972; Imagem: 296; Título: Ação Popular Marxista-Leninista). In: Arquivos da Polícia Política (acervo do período de 1927 a 1982). Arquivo Público Mineiro. Disponível em: http://www.siaapm.cultura.mg.gov.br/modules/dops_docs/photo.php?numero=0046&imagem=59 Acesso em: 05 fev. 2014.

[22] Documento 57 da Pasta 0046 (Dados da Pasta – Descrição: nº 0046; Rolo 005; Data: dez. 1971 – jul. 1972; Imagem: 296; Título: Ação Popular Marxista-Leninista). In: Arquivos da Polícia Política (acervo do período de 1927 a 1982). Arquivo Público Mineiro. Disponível em: http://www.siaapm.cultura.mg.gov.br/modules/dops_docs/photo.php?numero=0046&imagem=60 Acesso em: 05 fev. 2014.

[23] No já citado “TERMO DE PERGUTAS AO INDICIADO SÁLVIO HUMBERTO PENNA”, o nome da estudante de serviço social Maria Rozângela Batistoni aparece em dois momentos. Num primeiro, tem-se registrado no interrogatório que: “MARIA ROZÂNGELA BATISTONI (DIRCE) foi do antigo seccional, é assistente social da Prefeitura de Contagem e fazia trabalhos no bairro Inconfidentes: o depoente não a conhece pessoalmente”. Já num segundo momento, mais especificamente no trecho em que supostamente Sálvio teria fornecido os nomes e codinomes dos membros das regionais e seccionais da AP, assim está consignado: “que o antigo seccional era composto de ANTÔNIO CRISPIM DE OLIVEIRA (VALDEMAR), MARIA ROZÂNGELA BATISTONI (DIRCE), GLAUCE DE TAL e LEVINDO DE TAL”. Cf. Documentos 56 e 57 da Pasta 0046 (Dados da Pasta – Descrição: nº 0046; Rolo 005; Data: dez. 1971 – jul. 1972; Imagem: 296; Título: Ação Popular Marxista-Leninista). In: Arquivos da Polícia Política (acervo do período de 1927 a 1982). Arquivo Público Mineiro. Disponível em: http://www.siaapm.cultura.mg.gov.br/modules/dops_docs/photo.php?numero=0046&imagem=59 Acesso em: 05 fev. 2014.

[24] Documentos 82 a 85 da Pasta 0046 (Dados da Pasta – Descrição: nº 0046; Rolo 005; Data: dez. 1971 – jul. 1972; Imagem: 296; Título: Ação Popular Marxista-Leninista). In: Arquivos da Polícia Política (acervo do período de 1927 a 1982). Arquivo Público Mineiro. Disponível em: http://www.siaapm.cultura.mg.gov.br/modules/dops_docs/photo.php?numero=0046&imagem=85 Acesso em: 04 fev. 2014. 

[25] Documento 82 da Pasta 0046 (Dados da Pasta – Descrição: nº 0046; Rolo 005; Data: dez. 1971 – jul. 1972; Imagem: 296; Título: Ação Popular Marxista-Leninista). In: Arquivos da Polícia Política (acervo do período de 1927 a 1982). Arquivo Público Mineiro. Disponível em: http://www.siaapm.cultura.mg.gov.br/modules/dops_docs/photo.php?numero=0046&imagem=85 Acesso em: 04 fev. 2014. 

[26] No “TERMO DE PERGUTAS À INDICIADA MARIA ROZÂNGELA BATISTONI” temos registrado que: “em fins de maio daquele ano [1971] a depoente foi ‘ampliada’ por EDÉSIO FRANCO PASSOS (ANÍBAL – MACHADO); que ‘ampliação’ significa o ingresso da pessoa na organização, que a partir daí, a depoente deixou de ser simpatizante para integrar a organização denominada AÇÃO POPULAR como militante; que recebeu o codinome DIRCE, que como a AÇÃO POPULAR se achava naquela época em fase de reorganização, a depoente não integrou nenhuma célula de base; que em julho do mesmo ano [1971] a depoente assumiu provisoriamente a seccional de Belo Horizonte; (…); que todas as tarefas da depoente eram ligadas ao movimento operário; que a depoente continuou exercendo atividades políticas subversivas no mesmo local em que trabalhava, no ‘grupos de reflexão’, isto é, na Igreja Nossa Senhora da Piedade”. (Grifos nossos) Documento 83 da Pasta 0046 (Dados da Pasta – Descrição: nº 0046; Rolo 005; Data: dez. 1971 – jul. 1972; Imagem: 296; Título: Ação Popular Marxista-Leninista). In: Arquivos da Polícia Política (acervo do período de 1927 a 1982). Arquivo Público Mineiro. Disponível em: http://www.siaapm.cultura.mg.gov.br/modules/dops_docs/photo.php?numero=0046&imagem=86 Acesso em: 04 fev. 2014. 

[27] Documento 85 da Pasta 0046 (Dados da Pasta – Descrição: nº 0046; Rolo 005; Data: dez. 1971 – jul. 1972; Imagem: 296; Título: Ação Popular Marxista-Leninista). In: Arquivos da Polícia Política (acervo do período de 1927 a 1982). Arquivo Público Mineiro. Disponível em: http://www.siaapm.cultura.mg.gov.br/modules/dops_docs/photo.php?numero=0046&imagem=88 Acesso em: 04 fev. 2014. 

[28] “A Operária Maria das Dores Belmiro, 19 anos, morreu atropelada na Avenida Amazonas, em Belo Horizonte, no último dia 5, por um Volkswagen amarelo que fugiu sem que ninguém anotasse a placa”. NA FÁBRICA. Jornal Movimento, nº 17, p. 5, 27 out.1975.

[29] Idem

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