Uma anatomia do golpe da Ditadura Militar no Brasil (1964-1985)

São muitos os pesquisadores que se dedicam a estudar o período da Ditadura Militar no Brasil (1964-1985) para além da reconhecida repressão, perseguição e violência contra os opositores ao regime, expressas sob a forma de censura, exílio, prisão, tortura e outras coerções sociais.

Memorial da Resistência de São Paulo, antiga sede do Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo (Deops-SP) 

Este é o caso das pesquisas desenvolvidas pelos professores e pesquisadores do Instituto Bixiga que abordam criticamente aspectos econômicos, sociais, culturais, urbanos e jurídicos impostos pela Ditadura Militar, bem como as lutas e resistências da classe trabalhadora e demais movimentos populares contra o regime, demonstrando, para a surpresa de muitos, que os trabalhadores não “estavam dormindo, como nunca estiveram” nestes terríveis anos de repressão social.

Na primeira indicação dessa trilogia de Teses de Doutorado defendidas no Programa de Pós-graduação em História Social da PUC-SP, a professora Danielle Franco da Rocha apresenta as lutas dos trabalhadores bancários contra a superexploração do trabalho na ditadura no Brasil, especialmente entre os anos de 1964 a 1980, revelando suas finalidades, seus instrumentos, suas articulações e seus embates mais importantes contra a Ditadura Militar.

Com o título Bancários e oligopolização: avanços e limites nas lutas contra a superexploração do trabalho na ditadura no Brasil (1964-1980) e orientação da professora Vera Lucia Vieira, a pesquisa demonstra como a economia brasileira passou por uma avassaladora concentração e centralização de capital, que ganhou contornos oligopolistas, sendo portanto fundamental entender esse momento de intensas lutas operárias no Brasil, de articulação dos trabalhadores contra o aprofundamento da lógica de subordinação brasileira aos ditames imperiais do capitalismo monopolista.

Desse modo, a pesquisa da professora Daniella parte das lutas dos trabalhadores bancários nesse período, porque reconhece a importância da resistência e do enfrentamento destes ao aprofundamento do processo de oligopolização do capital.

Na segunda indicação de Tese, o professor Edimilsom Peres Castilho analisa a política habitacional instaurada pela Ditadura Militar a partir dos processos de produção e aquisição da casa própria ou moradia no Complexo Habitacional Cidade Tiradentes entre os anos de 1975 a 1998. Considerado o maior conjunto de habitação popular da periferia de São Paulo, Cidade Tiradentes surgiu na década de 1970 por intermédio da COHAB-SP. Localizado a trinta quilômetros do centro da cidade, na zona leste de São Paulo, é composto por 42.369 moradias que foram financiadas pela companhia, sendo também marcante a presença de moradias erguidas por meio da autoconstrução.

Com o título A contribuição da Habitação Popular no processo de acumulação capitalista no Brasil: o caso do Complexo Habitacional Cidade Tiradentes na periferia paulistana (1975-1998) e orientação da professora Yvone Dias Avelino, a pesquisa demonstra que o assentamento habitacional por meio da autoconstrução ou do financiamento da moradia no período da Ditadura Militar aprofundou a superexploração da classe trabalhadora e garantiu elevadas taxas de capital e lucro que foram transferidas para outros setores da economia brasileira, com destaque para indústria.

Apesar da intervenção do Estado na constituição do complexo habitacional, a ideia básica que orientou a pesquisa pautou-se na compreensão do surgimento Cidade Tiradentes como resultado das lutas, conquistas e múltiplas experiências dos moradores no acesso à moradia e por melhores condições saúde, educação, transporte, saneamento e infraestrutura, que o transformou num espaço de referência de organização popular na periferia de São Paulo até os dias de hoje.

 

Na terceira indicação de Tese, o professor Eribelto Peres Castilho analisa um jornal alternativo de grande combate à Ditadura Militar, o Jornal Movimento.

Com o título A Classe Trabalhadora In Movimento: Um Retrato das Lutas dos Trabalhadores no Jornal Movimento (1975-1981) e orientação do professor Antônio Rago Filho, a pesquisa propõe uma análise imanente do retrato das lutas, resistências, derrotas e vitórias cotidianas dos trabalhadores brasileiros corporificado nas páginas do jornal Movimento, frente à superexploração de sua força de trabalho, frente à fome, desnutrição e criminalização de seus filhos, frente à miséria social infligida pela plataforma econômica da autocracia burguesa brasileira em sua forma bonapartista, especialmente entre os anos de 1975 e 1981.

Para retratar parte significativa desse triste período de nossa história, nossas pesquisam utilizam um diversificado conjunto de fontes históricas – iconográfica, documental e bibliográfica – que inclui diversas disponibilizadas no acervo do Memorial da Resistência de São Paulo.

Outra indicação de leitura são as contribuições dos professores Danielle e Eribelto em dois capítulos do livro “Questões da Ditadura: vigilância, repressão, projetos e contestações” que concentra uma seleção de textos que tratam de aspectos da ditadura civil militar, da vigilância política e da repressão realizada pelo Estado. 

Nesse mês de abril, período em que o golpe militar de 1964 completa 57 anos, o Instituto Bixiga – Pesquisa, Formação e Cultura Popular em parceria com o Memorial da Resistência de São Paulo oferecem um curso cujo propósito consiste não apenas em expor e discutir criticamente as principais “reformas” antipopulares impostas ao longo de todo o período correspondente à Ditadura Militar no Brasil (1964-85), mas, sobretudo, apresentar e debater as formas de lutas e resistências empreendidas por uma classe trabalhadora em constante movimento.

O curso A Classe Trabalhadora em Movimento: Lutas e Resistências contra as “Reformas” da Ditadura Militar no Brasil (1964-1985) será realizado no dia 07 de abril de 2021, quinta-feira, entre 19 e 21h com inscrições gratuitas. Garanta sua vaga!

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